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Depoimentos


Autor: Marcelino Brandão Filho
Data: 20Out2006
Assunto: Iron Biker 2006
Fonte: E-mail

Título: Depoimento Iron Biker 2006

À frente seguia o 1º Esclarecedor, palmilhando a caminho e alertando sobre dificuldades e obstáculos; seguia-se o mais forte dos três, um verdadeiro carro de combate, vencendo as subidas e descidas com a bravura de um guerreiro; eu seguia atrás, pegando o terreno já palmilhado e imitando as ações dos que seguiam à frente.

No Iron Biker de 2005 nós estivemos presentes fazendo apoio aos nossos companheiros Rebas. Foi uma grande diversão, mas ficava a vontade de saber se o Iron era tudo aquilo que o pessoal falava: coisa quase intransponível. Prometemos para nós mesmos que voltaríamos em 2006 para fazer a “cozinha do Iron”, pedalando como se estivéssemos em uma trilha, sem preocupação de competir, apenas para participar e levar a valorizada medalha de participação.

-Vocês aí, me respeitem!!! Agora eu tenho a medalha do Iron Biker!!!

Quase que não deu certo. Mas estávamos lá: eu, o Walter e o Arnaldo Foca, vencendo os eventos impeditivos e contornando os problemas de última hora. Com a mesma alegria de 2005, mas com um único objetivo: completar o Iron Biker dentro do limite de tempo permitido e receber, no podium a medalha de participação.

Fizemos o cálculo e constatamos que se pedalássemos na velocidade média de 7 km/h nós conseguiríamos nosso objetivo. Nada de sacrifício, o pedal deveria ser parecido com uma trilha dominical, onde a diversão e o passeio são predominantes.

Um grande problema apareceu logo na inscrição. Nossa categoria, a M11, imposta pela nossa idade, tinha que realizar o percurso completo(100%). Isso significava fazer um percurso de 70 km no primeiro dia e 63 km no segundo dia, o que não estava nos nossos planos. Essa quilometragem nos esgotaria e impediria de curtir a viagem como turistas.

No apanha dos Kits nós procuramos a organização e apresentamos nossos interesses. Fomos autorizados a fazer o percurso reduzido de 60%, pedalando 46 km no primeiro dia e 38 km no segundo dia, não sendo computados nossos tempos para classificação, mas possibilitando a obtenção da tão almejada medalha de participação. Já estávamos sendo conhecidos como “os três velhinhos de Brasília”.

No primeiro dia, logo na largada, as grandes emoções. Quando eu entrei no corredor de vistoria, lembrei-me de 2005. Na mesma oportunidade, como assistente, eu tinha recentemente sido vitima de um entupimento arterial na perna esquerda, com possibilidades de amputação. Esse fantasma estava comigo naquela oportunidade e as dores na perna e no pé esquerdos faziam-me lembrar o tempo todo da possibilidade de uma tragédia pessoal.

Pois é... Em 2006, agora como participante, veio-me à mente essa lembrança e não consegui segurar as lágrimas. O entupimento arterial já havia melhorado e eu achava que estava em condições de participar do Iron. O fantasma da amputação havia desaparecido, os sintomas melhorados e sentia-me quase normal.

O Walter e o Foca notaram minha situação e nada disseram como que respeitando minha situação. Mas as emoções continuaram. A benção do padre ciclista, o solo de guitarra do Hino Nacional e a eminência da largada não deixaram que eu parasse de chorar. A chuva fina que começou a cair amainou a situação misturando água e lágrimas. Eu estava no Iron Biker...

Nós havíamos discutido sobre nossa situação física e técnica para enfrentar as subidas do Iron e chegamos à conclusão que de nada adiantava zerar todas as subidas e chegar desgastados no primeiro dia. Assim, adotamos a estratégia de empurrar nas grandes subidas e poupar o tempo todo as nossas forças para alcançar o objetivo final: a medalha de participação.

Essa estratégia pode parecer esdrúxula, mas foi de grande valia. Em alguns pontos do percurso nós ultrapassamos empurrando bikers pedalando. E logo na primeira subida, ainda dentro de Ouro Preto, o piso de pedra molhado era como “quiabo”, como observou o Foca para o repórter da Rede Globo que o entrevistou.

Nessa subida ultrapassamos uns cinco bikers com as bikes quebradas. Uns desses bikers foi o Élvio, o grande Élvio, com o pneu rasgado por uma pedra, fazendo-o desistir. Se completássemos o primeiro dia já estaríamos conseguindo o que aqueles bikers quebrados não conseguiram.

Assim era o nosso pensamento de superação. Logo no início da prova pudemos constatar o que foi uma constante nos percursos dos dois dias: a excelência do balizamento, dos postos de controle e de apoio. A organização não economizou em sinalização e balizamento em nenhum momento do percurso. Não havia como se perder. Nos pontos mais duvidosos estava lá um fiscal da organização para fazer o balizamento.

Resolvemos fazer uma brincadeira com esses ficais de balizamento: o Walter e o Foca seguiam o sentido correto e eu, fazendo de conta que não tinha observado a indicação, tomava o sentido errado. Quando isso acontecia o fiscal corria atrás de mim, chamando-me, para que eu tomasse o sentido correto e o Walter e o Foca gritavam para ele aumentar o tom de voz porque eu era “um general surdo”. E isso acontecia. O pobre do fiscal, acreditando na informação, acelerava o passo até me alcançar e fazer com que eu tomasse o sentido correto. Para completar a brincadeira, quando o fiscal me alcançava eu reclamava que ele estava atrapalhando a minha prova e dificultando a minha subida ao podium. Ele ficava sem saber o que estava acontecendo com aqueles três malucos, já que éramos os últimos bikers a passar pelo ponto.

Em outras oportunidades o Walter perguntava ao fiscal se já tinha passado muita gente e se nós estávamos bem na prova. É claro que o fiscal ficava espantado com a pergunta e ouvia logo depois o Walter completar que estávamos lá buscando o podium.

Nas grandes subidas, sempre empurrando a bike, o Foca não cansava de dizer que “só o cume interessa”.

E assim foi no primeiro dia...

Essas brincadeiras repetiram-se no segundo dia, mas os fiscais já nos conheciam e já estavam preparados para nos receber. Em alguns pontos de controle, quando estávamos nos aproximando, nós ouvíamos os fiscais comentarem: “lá vem os três velhinhos de Brasília”, “preparem-se porque um deles é general e é surdo”.

A vantagem de andar nos últimos colocados da prova é ter uma motocicleta acompanhando o tempo todo.

No primeiro dia tivemos a grata companhia do Filipe. O Filipe é um garoto de menos de 10 anos que participa todos os anos do Iron Biker. Ele dá a largada e alguns quilômetros à frente, quando cansado, é resgatado pelo seu pai que vai de moto e é um dos organizadores do Iron. Nós encontramos com o Filipe na primeira subida e nos relacionamos muito bem com o garoto. Fomos conversando e estimulando que ele completasse a prova. Completar a prova no primeiro dia é mais fácil que no segundo dia, porque de Ouro Preto para Mariana há um desnível e, mesmo existindo subidas, no final a gente mais desce do que sobe.

O Filipe iria fazer o percurso de 40% e nós o acompanhamos até a bifurcação dos 40% com os 60%. Daí para frente, corretamente orientado e acompanhado por seu pai, o Filipe completou o percurso pela primeira vez, para nosso júbilo.

No segundo dia sabíamos que não poderíamos fazer a mesma coisa. Além da aclividade de Mariana para Ouro Preto, a “subida da purificação”, localizada no final do percurso, seria muito sacrificante para um garoto daquela idade. Quando nós chegamos no segundo dia, o Filipe estava nos esperando para comemorarmos juntos nossos feitos. Ganhamos um belo amigo Rebas...

Depois que nos separamos do Filipe, uma surpresa nos esperava. Tivemos que enfrentar aproximadamente quatro quilômetros de lama do tipo saibro, daquele que gruda na roda e não sai. No objetivo de melhorar o percurso a organização mandou passar uma niveladora nesse trecho e o barro, como que aflorando do solo, grudou nas rodas, nas sapatilhas e na gente. Não havia como pedalar, nem como empurrar a bike. A cada 50 metros tínhamos que parar e tirar os “toletes” de lama grudados na bike. E o mais desanimador é que esse trecho era predominantemente de planos e descidas. Empurrar na descida era coisa que não tínhamos preparado. Acho que gastamos quase duas horas para vencer esse trecho. No final, quando a lama acabou, encontramos um riacho que estava cheio de bikers, lavando suas bikes. Fizemos a mesma coisa para poder continuar a pedalar.

Dizem que o Walter tem “alzheimer”. Nunca acreditei nisso, mas um fato hilariante aconteceu nesse primeiro dia. Ultrapassamos um grupo de três mulheres em um trecho de subida escorregadia em single track. Uma delas perguntou se algum de nós tinha remédio para dor de cabeça. O Walter tinha comprimidos de “profenid”. Querendo ajudar o Walter dirigiu-se à mulher com dor de cabeça e disse que tinha comprimido de “profiterolis”, perguntando se esse servia. Quando ele disse isso as três mulheres pararam, olharam uma para outra e começaram a rir. Uma delas virou-se para o Walter e disse que não era sobremesa que a colega precisava, mas sim de um remédio. Até agora eu não sei se o Walter falou brincando ou se o “Alzheimer” está mesmo se instalando. Não se pode acreditar em tudo que o Walter fala.

No final do percurso do primeiro dia, em um single track, eu distraí e escorreguei a roda dianteira na beirada de um sulco e caí. Um tombo bobo, mas que fez levantar um grande hematoma no meu joelho esquerdo, que dificultava que eu dobrasse a perna. Mesmo assim, chegamos muito bem, dentro do limite de tempo permitido pela organização. Tínhamos cumprido nossa primeira meta.

Na chegada do primeiro dia havia um clima de revolta e consternação. A organização, vendo que o trecho de lama era impraticável, resgatou os corredores em ônibus, impedindo que eles terminassem a prova. Como a gente vinha muito atrás, quando nós passamos na lama, o resgate já havia sido processado e nós tivemos que enfrentá-la. O estado de sujeira de barro dos corredores era algo assustador. Como nós chegamos praticamente limpos, tanto nós como as bikes(que foram lavadas no riacho), alguns Rebas acharam que nós não havíamos realizado a prova. A pulseira de passagem nos pontos de controle afirmava nosso feito.

Agora era hora de preparar para o segundo dia.

Providenciamos a lavagem das bikes em um lavador de carros e atentamos para a lubrificação da corrente, coroas e catracas. Mesmo com todos esses cuidados eu perdi as três primeiras catracas e a coroa grande. No segundo dia eu tive que administrar o pedal com as marchas disponíveis.

As oficinas de bikes montadas em Mariana racharam de ganhar dinheiro. Teve uma oficina que na noite entre o primeiro e o segundo dia lavou, lubrificou e regulou 58 bikes ao preço de R$ 30,00. Não havia mais sapatas de freio para comprar. Tudo o que havia nas lojas foi vendido. Eu ouvi a história de um americano que pagou R$ 80,00 por um conjunto de sapatas de freio. Eu vi muitos bikers que não puderam participar no segundo dia por falta de freio. Alguns bikers, mesmo sem freio, participaram improvisando novos tipos de frenagem.

A falta de outros componentes para bikes como gancheira, passadores, cabos, etc era algo latente em todas as lojas. Os donos de loja de bikes de Brasília poderiam analisar esse mercado, que acho viável.

A largada do segundo dia em Mariana não tem a ostentação da largado do primeiro dia em Ouro Preto, mas tem a sua beleza. O joelho, apesar de dolorido, melhorou, possibilitando que a perna esquerda dobrasse. O trecho de lama foi excluído do percurso pela organização. Com isso o percurso de 100% teve a sua metragem diminuída de 15 km. Os outros percursos continuaram com a mesma dimensão.

Nós iríamos manter a mesma estratégia praticada no primeiro dia: subida muito forte, empurrar.

Sabíamos, pela análise da altimetria, que no final do percurso havia uma subida pesada de aproximadamente 7 km, cujo apelido é “subida da purificação”. Assim, era necessário poupar forças para o final.

A nossa passagem pelos pontos de controle, balizamento e apoio já era esperada. Os “velhinhos de Brasília” já estavam bem conhecidos.

O percurso do segundo dia mostrou-se mais fácil do que do primeiro dia e pudemos desenvolver uma média de velocidade maior.

Nos dois dias o visual dos percursos é deslumbrante.

O ponto de controle final foi colocado no meu do mato, próximo à sede de uma fazenda, impedindo golpes. Um biker só consegue o adesivo que dá direito à medalha de participação se passar por esse ponto de controle, que, por sua localização, obriga que se passe por um outro ponto de controle anterior. Nesse último ponto de controle a pulseira é conferida e verificado se o biker passou por todos os pontos de controle previstos.

Coisa muito bem feita...

Depois do ponto de controle, a gente percorre aproximadamente 4 quilômetros até chegar na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, para receber a medalha. Esses 4 quilômetros são apenas de caráter administrativo, já que a cronometragem foi feita no ponto de controle da fazenda.

Chegamos com mais de uma hora de sobra do tempo máximo.

A chegada na praça e o recebimento da medalha no podium do Iron são de uma emoção incomparável.

Nossa chegada foi esperada pelo Filipe. Grande garoto...

Recebemos os cumprimentos dos Rebas e esperamos, com festa, a chegada dos demais Rebas.

A premiação destacou nossos Rebas competitivos. Parabéns a todos!

O Rebas ganhou o troféu de maior grupo presente no Iron. Esse troféu tem um grande significado para nós, que sempre fomos um grupo de amigos que se reúne para pedalar. Um destaque em uma competição do nível do Iron é algo que muito nos enobrece.

Assim ganhamos nossa medalha de participação.

-Vocês aí, me respeitem!!! Agora eu tenho a medalha do Iron Biker!!!

Agradeço os estímulos dos Rebas em favor da minha participação.

Porém, agradeço de coração aos meus dois companheiros de jornada: o Walter e o Arnaldo Foca. Ambos pedalam muito mais do que eu e souberam com inteligência e tato me esperar em todos os atrasos causados pela minha baixa velocidade. Em momento algum fui constrangido pelo meu baixo nível de pedal. Em vez de críticas, sempre havia uma palavra de estímulo. E foi nesse ambiente de autoproteção e apoio que nós três chegamos vitoriosos em Ouro Preto.

Uma foto, onde nós três pegamos troféus emprestados e subimos no podium do Iron, reflete o nosso semblante de satisfação.
Essa foto mostra o prazer que tivemos de estarmos juntos nessa empreitada.
Valeu...
Um grande abraço

Marcelino

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